quinta-feira, 27 de agosto de 2026

ARTIGO DE PEDRO TEIXEIRA CASTILHO

    Publicamos em sequências o seguinte artigo de Pedro Teixeira Castilho :  Formas de mal-estar no campo da educação: sintoma, inibição e angústia nos fracassos escolares -  para que nossos leitores possam ter acesso a produção acadêmica de qualidade na área das Ciências Humanas, no caso a psicologia,  a fim de ampliar os horizontes sobre a informação e produção de conhecimentos que visa compreender os seres humanos e contribuir para uma melhor qualidade de vida da população.  O texto abrange a área da psicologia da educação e tudo que diz respeito a educação pertence a toda sociedade. Importante salientar que os saberes são muitos ( acadêmicos ou não)  e conviver com o respeito aos saberes faz parte das atitudes da valorização dos seres humanos que estão contribuindo para a construção da sustentabilidade.


Formas de mal-estar no campo da educação: sintoma, inibição e angústia nos fracassos escolares

Pedro T. Castilho

Psicanalista e professor da UFMG


PARTE 1 


A cientificização das dificuldades de aprendizagem durante o processo de 
construção de conhecimento vem produzindo uma segregação no ambiente escolar. 
Nos dias atuais, é bastante comum a interpretação dos sintomas, dos fracassos e dos 
impasses na transmissão estarem ligadas à sua disfunção cognitiva e médicas sem 
levar em consideração a perspectiva psicanalítica destas dificuldades. A consequência 
desta prática é a segregação que acaba produzindo o “aluno problema”. Sendo assim, 
pretendemos demonstrar como os problemas de aprendizagem estão sendo tratados se 
levarmos em consideração uma abordagem médica que não trata da questão libidinal 
no processo da aprendizagem. 
Palavras-chaves: aprendizagem; biopoder; pulsão; segregação; psicanálise. 

Introdução

 

A cientificização das dificuldades de aprendizagem durante o processo de 
construção de conhecimento produz uma segregação no ambiente escolar. Nos 
dias atuais, é bastante comum a interpretação de que os sintomas, os fracassos 
e os impasses na transmissão estão ligados a disfunções cognitivas e médicas, 
sem levar em consideração a perspectiva psicanalítica dessas dificuldades. A 
consequência dessa prática é a segregação que, por sua vez, acaba produzindo o 
“aluno problema”. Sendo assim, pretendemos demonstrar como os problemas 
de aprendizagem estão sendo tratados com base nessa abordagem médica que 
desconsidera a questão libidinal no processo da aprendizagem.

 

A segregação do discurso da ciência

 

A nosografia psiquiátrica tem interferido nos diagnósticos da aprendizagem. 
Isso fica claro quando nos lembramos das famílias de crianças que aparecem 
nos consultórios dos psicanalistas com a nomenclatura diagnóstica “dis”. Será
isso o mesmo que ficou conhecido, outrora, como “problemas instrumentais”, 
também já catalogados como “problemas mentais” da criança e do adolescente? 
Nessa família de problemas instrumentais, haveria um intruso, do lado da disgrafia, 
juntamente com os problemas de expressão somática.
Essa família dos “dis” foi recentemente promovida, por diferentes nosografias 
internacionais em vigor (DSM IV e CID 10), a “problemas específicos de 
aprendizagem”, e notemos a esse propósito que, com a aproximação terminológica 
inaugurada, há uma vintena de anos, pelo uso corrente do DSM IV, a patologia 
se declina em “problemas” e não mais em “sintomas”.
Nesse sentido, com relação aos problemas de aprendizagem, a nomenclatura “dis” 
passou a ser algo comum nos diagnósticos. O dis é um prefixo tirado 
do grego dus, que exprime a ideia de mal, ou de falta, com uma noção privativa. 
Opõe-se a eu – que exprime a perfeição, o acabamento (euforia), e serve 
para reforçar o sentido de um termo desfavorável ou para destruir uma noção
favorável. Funciona, assim, como alternância à partícula privativa a-. Durante 
a história da Grécia antiga, esse prefixo teve um lugar de destaque, servindo 
para formar mais de mil palavras em todos os gêneros literários. É um elemento 
de composição muito antigo, igualmente produtivo em indo-iraniano (sânscrito 
dus-, dur), em alemão (no alemão antigo zur-) e celta (irlandês antigo du-, do). O 
dicionário indica em seguida que esse prefixo serviu, nos século XIX e XX, para 
formar um grande número de compostos, principalmente no domínio ilimitado 
da patologia médica (mau funcionamento, mau estado).
O desvio pela história da língua nos permite perceber algo do elo “orgânico” 
indispensável para se pôr no lugar, para que alguma coisa possa justamente 
se organizar, se enodar entre um sujeito candidato à aprendizagem e o objeto 
proposto. Trata-se de uma oferta de gozo que exibe a alienação do sujeito ao 
discurso da ciência. A terapêutica das disfunções cognitivas diagnosticadas busca 
adaptar o gozo do sujeito a um modelo hegemônico de disfunções intelectuais 
produzidas pelo discurso da ciência como deficit. Busca-se atingir, por meio de 
uma “ética do bem-estar”, um desempenho estipulado pela exigência da norma, 
apontando as “dificuldades da aprendizagem” ao que se produz como um “mal-
-estar na escola”, diante da segregação produzida pelo fracasso.
O fato é que nossa atualidade acusa a marcada prevalência de uma linha 
de pensamento, a que a sociologia da ciência chama “cientificismo”, que sus-
tenta que as ciências – sobretudo as exatas e as naturais – representam uma
forma de saber superior a todas as outras, posição ue encobre uma idealização
da ciência. Porém, desde que se trata de uma crença, isso já indica a vigência 
de um desmentido a seu respeito. E o desmentido, como sabemos, constitui o 
operador que define a perversão, entendida, a propósito, para além de qualquer 
apreensão visual das condutas e/ou das atividades sexuais em jogo.
Como dissemos, a ciência, no tocante a seus resultados, nos confronta, 
de modo incessante, com a relativa e frágil validade dos mesmos, chamando os 
problemas de aprendizagem de deficit. Podemos tomar um exemplo simples de 
nosso cotidiano: a computação – que é, de fato, um produto da tecnociência, 
uma aplicação da ciência –, em que, constantemente, se aponta tanto para a 
volatilidade de seus resultados quanto para a rapidez do envelhecimento e do 
conseguinte descarte, lapidador tanto do valor de uso como do valor de troca 
de seus elementos constitutivos e instrumentais.
Nesse sentido, Amery (2002) afirma que, no fim das contas, o Terceiro 
Reich fazia parte de “uma tendência evolutiva que surge com a secularização, 
a industrialização e o auge da ciência como meio de produção” (p. 14). A esse 
respeito, Agamben (1998) nos lembra que a “vida nua” permitiu aos nazistas 
realizar experiências com cobaias humanas, sob o pretexto de ampliar o progresso 
da ciência. Quem, senão a vida nua – reflete ironicamente o filósofo –, 
“poderia prover os nobres e enaltecedores ditames da ciência experimental, a fim 
de experimentar com meros corpos humanos, cujo valor é nulo na medida em 
que foram zoologizados de antemão?”. Assim começamos a marcar com nitidez 
empírica o laço vigente entre a ciência e o campo ao qual havia feito menção no 
início do artigo. Avancemos, observando, com Agamben, o seguinte: estudou-
-se o nível de tolerância à escassez de ar, com vistas, particularmente, a avaliar 
o que poderia acontecer com as reações dos pilotos aéreos e dos paraquedistas; 
investigou-se, também, “como se pode sobreviver em águas geladas, a potabilidade 
da água do mar, a inoculação de bactérias da febre petequial e do vírus da 
hepatite endêmica” (nesses dois últimos casos, objetivando encontrar condições 
de fabricar as respectivas vacinas). Também se tentou obter “a esterilização não 
cirúrgica por meio de substâncias químicas ou de radiação”; inclusive, “e de forma 
mais ocasional, projetou-se também experimentos sobre o transplante de rins, 
as inflamações celulares, etc.” (Agamben, 1998, p. 196-197). Mas o que não se 
percebe é a face segregadora do discurso da ciência. A positivização do fracasso 
escolar é consequência desse discurso.
Neste ponto, é importante evocar a metáfora, proposta por Agamben
(1988) do homo sacer o excluido do discurso da ciência: o que pode, sim,
o homo sacer, porque está fora da lei, é ser assassinado sem que esse assassinato 
constitua delito, portanto, fica reduzido, pela perda de todos os seus direitos, 
como acontece com aquele que entra no campo”. O que chama, então, Agambem 
de “vida nua”, seria a tradução moderna do homo sacer, ou seja, não a vida regida 
de acordo com o contrato social, mas a vida abandonada, a respeito da qual o 
resto dos falantes se encontra habilitado para atuar como soberano; seu corpo 
é aquele sobre o qual tudo pode ser executado, mas que ninguém dirá que foi 
sacrificado (Agamben, 1998, p. 129).
Agamben (1998) se distancia da clássica ideia de Rousseau, segundo a qual 
o Estado se funda em virtude da assinatura – obviamente implícita – de um 
contrato social. Na verdade, o Estado não consolida uma identidade nem confere 
um pertencimento. Tampouco se trata da conhecida lei simbólica que, com tanta 
frequência, discutimos como veículo de uma ordem libertadora, apaziguante e 
sedativa. Dessa maneira, a partir de Agamben (1998), é possível perceber que 
o discurso da ciência produz segregações, por meio de uma numerificação e da 
positivização dos fracassos escolares. A vida nua invade a escola e, consequentemente, 
se produz uma segregação. 
O conceito de dificuldade de aprendizagem é uma invenção da pedagogia 
do final do século XIX que surgiu a partir da reforma do sistema educativo cujo 
objetivo é a generalização da educação e a avaliação das aptidões linguísticas, 
matemáticas, de leitura e de escrita em um curto espaço de tempo. A partir daí, 
esse conceito encontrou um substrato científico na psiquiatria e na psicologia 
atual. 
Dessa forma, o diagnóstico organicista é dúbio, pois ajuda na resolução 
imediata do problema da criança na escola, livrando a família da culpa pela não 
aprendizagem e mau comportamento e também apresenta as consequências de 
se nomear alguém tão cedo com um diagnóstico de transtorno mental. 
Tratado pela psiquiatria como dificuldade de aprendizagem, esse conceito 
se equipara às deficiências mentais, depois de ter sido interpretado como déficit. 
As causas da deficiência mental se articulavam com as síndromes do sistema 
nervoso, isto é, as causas simples tinham suas origens em problemas orgânicos 
podendo ser exógenas com sequelas de encefalite ou por problemas endógenos, 
como os transtornos congênitos. 
Assim, com a psicologia e a psiquiatria, é possível observar fatores de lesão 
e de transmissão hereditários na constituição das causas essenciais das deficiências
mentais. A tendência em considerar as deficiências mentais como consequência
de síndromes deficitárias por lesões do sistema nervoso, mesmo que tenha como 
referência os neurologistas atuais, ignora a dimensão estrutural do psiquismo a 
partir da relação entre o desejo da mãe e o Nome-do-Pai. 
Quero aqui defender a ideia de que a situação que deve funcionar para 
que conhecimentos se transmitam ao longo de uma aprendizagem escolar, por 
exemplo, supõe a instauração de uma relação do professor/aprendiz suscetível, 
justamente para assegurar a transmissão do saber detido pelo professor. Nesse 
sentido, o processo de aprendizagem está desvinculado de qualquer gênese 
solipsista da “dificuldade de aprendizagem”, mas, sim, está próximo de uma 
referência sintomática. Assim, refutando qualquer herança orgânica, teríamos 
na relação do sujeito com o Outro a formação de sintomas de aprendizagem não 
mais como falhas ou desvios de comportamento, mas referências na formação 
do sintoma, da inibição e da angústia do sujeito.
Buscaremos, agora, os desdobramentos dessa maneira de se interpelar as 
relações e as construções do sintoma do ponto de vista analítico, levando em 
consideração, também, o campo da transmissão de saber e as relações institucionais 
 englobam o aluno em sala de aula. 

 




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