Publicamos em sequências o seguinte artigo de Pedro Teixeira Castilho : Formas de mal-estar no campo da educação: sintoma, inibição e angústia nos fracassos escolares - para que nossos leitores possam ter acesso a produção acadêmica de qualidade na área das Ciências Humanas, no caso a psicologia, a fim de ampliar os horizontes sobre a informação e produção de conhecimentos que visa compreender os seres humanos e contribuir para uma melhor qualidade de vida da população. O texto abrange a área da psicologia da educação e tudo que diz respeito a educação pertence a toda sociedade. Importante salientar que os saberes são muitos ( acadêmicos ou não) e conviver com o respeito aos saberes faz parte das atitudes da valorização dos seres humanos que estão contribuindo para a construção da sustentabilidade.
Formas de mal-estar no campo da educação: sintoma, inibição e angústia nos fracassos escolares
Pedro T. Castilho
Psicanalista e professor da UFMG
PARTE 1A cientificização das dificuldades de aprendizagem durante o processo deconstrução de conhecimento vem produzindo uma segregação no ambiente escolar.Nos dias atuais, é bastante comum a interpretação dos sintomas, dos fracassos e dosimpasses na transmissão estarem ligadas à sua disfunção cognitiva e médicas semlevar em consideração a perspectiva psicanalítica destas dificuldades. A consequênciadesta prática é a segregação que acaba produzindo o “aluno problema”. Sendo assim,pretendemos demonstrar como os problemas de aprendizagem estão sendo tratados selevarmos em consideração uma abordagem médica que não trata da questão libidinalno processo da aprendizagem.Palavras-chaves: aprendizagem; biopoder; pulsão; segregação; psicanálise.Introdução
A cientificização das dificuldades de aprendizagem durante o processo deconstrução de conhecimento produz uma segregação no ambiente escolar. Nosdias atuais, é bastante comum a interpretação de que os sintomas, os fracassose os impasses na transmissão estão ligados a disfunções cognitivas e médicas,sem levar em consideração a perspectiva psicanalítica dessas dificuldades. Aconsequência dessa prática é a segregação que, por sua vez, acaba produzindo o“aluno problema”. Sendo assim, pretendemos demonstrar como os problemasde aprendizagem estão sendo tratados com base nessa abordagem médica quedesconsidera a questão libidinal no processo da aprendizagem.
A segregação do discurso da ciência
A nosografia psiquiátrica tem interferido nos diagnósticos da aprendizagem.Isso fica claro quando nos lembramos das famílias de crianças que aparecemnos consultórios dos psicanalistas com a nomenclatura diagnóstica “dis”. Seráisso o mesmo que ficou conhecido, outrora, como “problemas instrumentais”,também já catalogados como “problemas mentais” da criança e do adolescente?Nessa família de problemas instrumentais, haveria um intruso, do lado da disgrafia,juntamente com os problemas de expressão somática.Essa família dos “dis” foi recentemente promovida, por diferentes nosografiasinternacionais em vigor (DSM IV e CID 10), a “problemas específicos deaprendizagem”, e notemos a esse propósito que, com a aproximação terminológicainaugurada, há uma vintena de anos, pelo uso corrente do DSM IV, a patologiase declina em “problemas” e não mais em “sintomas”.Nesse sentido, com relação aos problemas de aprendizagem, a nomenclatura “dis”passou a ser algo comum nos diagnósticos. O dis é um prefixo tiradodo grego dus, que exprime a ideia de mal, ou de falta, com uma noção privativa.Opõe-se a eu – que exprime a perfeição, o acabamento (euforia), e servepara reforçar o sentido de um termo desfavorável ou para destruir uma noçãofavorável. Funciona, assim, como alternância à partícula privativa a-. Durantea história da Grécia antiga, esse prefixo teve um lugar de destaque, servindopara formar mais de mil palavras em todos os gêneros literários. É um elementode composição muito antigo, igualmente produtivo em indo-iraniano (sânscritodus-, dur), em alemão (no alemão antigo zur-) e celta (irlandês antigo du-, do). Odicionário indica em seguida que esse prefixo serviu, nos século XIX e XX, paraformar um grande número de compostos, principalmente no domínio ilimitadoda patologia médica (mau funcionamento, mau estado).O desvio pela história da língua nos permite perceber algo do elo “orgânico”indispensável para se pôr no lugar, para que alguma coisa possa justamentese organizar, se enodar entre um sujeito candidato à aprendizagem e o objetoproposto. Trata-se de uma oferta de gozo que exibe a alienação do sujeito aodiscurso da ciência. A terapêutica das disfunções cognitivas diagnosticadas buscaadaptar o gozo do sujeito a um modelo hegemônico de disfunções intelectuaisproduzidas pelo discurso da ciência como deficit. Busca-se atingir, por meio deuma “ética do bem-estar”, um desempenho estipulado pela exigência da norma,apontando as “dificuldades da aprendizagem” ao que se produz como um “mal--estar na escola”, diante da segregação produzida pelo fracasso.O fato é que nossa atualidade acusa a marcada prevalência de uma linhade pensamento, a que a sociologia da ciência chama “cientificismo”, que sus-tenta que as ciências – sobretudo as exatas e as naturais – representam umaforma de saber superior a todas as outras, posição ue encobre uma idealizaçãoda ciência. Porém, desde que se trata de uma crença, isso já indica a vigênciade um desmentido a seu respeito. E o desmentido, como sabemos, constitui ooperador que define a perversão, entendida, a propósito, para além de qualquerapreensão visual das condutas e/ou das atividades sexuais em jogo.Como dissemos, a ciência, no tocante a seus resultados, nos confronta,de modo incessante, com a relativa e frágil validade dos mesmos, chamando osproblemas de aprendizagem de deficit. Podemos tomar um exemplo simples denosso cotidiano: a computação – que é, de fato, um produto da tecnociência,uma aplicação da ciência –, em que, constantemente, se aponta tanto para avolatilidade de seus resultados quanto para a rapidez do envelhecimento e doconseguinte descarte, lapidador tanto do valor de uso como do valor de trocade seus elementos constitutivos e instrumentais.Nesse sentido, Amery (2002) afirma que, no fim das contas, o TerceiroReich fazia parte de “uma tendência evolutiva que surge com a secularização,a industrialização e o auge da ciência como meio de produção” (p. 14). A esserespeito, Agamben (1998) nos lembra que a “vida nua” permitiu aos nazistasrealizar experiências com cobaias humanas, sob o pretexto de ampliar o progressoda ciência. Quem, senão a vida nua – reflete ironicamente o filósofo –,“poderia prover os nobres e enaltecedores ditames da ciência experimental, a fimde experimentar com meros corpos humanos, cujo valor é nulo na medida emque foram zoologizados de antemão?”. Assim começamos a marcar com nitidezempírica o laço vigente entre a ciência e o campo ao qual havia feito menção noinício do artigo. Avancemos, observando, com Agamben, o seguinte: estudou--se o nível de tolerância à escassez de ar, com vistas, particularmente, a avaliaro que poderia acontecer com as reações dos pilotos aéreos e dos paraquedistas;investigou-se, também, “como se pode sobreviver em águas geladas, a potabilidadeda água do mar, a inoculação de bactérias da febre petequial e do vírus dahepatite endêmica” (nesses dois últimos casos, objetivando encontrar condiçõesde fabricar as respectivas vacinas). Também se tentou obter “a esterilização nãocirúrgica por meio de substâncias químicas ou de radiação”; inclusive, “e de formamais ocasional, projetou-se também experimentos sobre o transplante de rins,as inflamações celulares, etc.” (Agamben, 1998, p. 196-197). Mas o que não sepercebe é a face segregadora do discurso da ciência. A positivização do fracassoescolar é consequência desse discurso.Neste ponto, é importante evocar a metáfora, proposta por Agamben(1988) do homo sacer o excluido do discurso da ciência: o que pode, sim,o homo sacer, porque está fora da lei, é ser assassinado sem que esse assassinatoconstitua delito, portanto, fica reduzido, pela perda de todos os seus direitos,como acontece com aquele que entra no campo”. O que chama, então, Agambemde “vida nua”, seria a tradução moderna do homo sacer, ou seja, não a vida regidade acordo com o contrato social, mas a vida abandonada, a respeito da qual oresto dos falantes se encontra habilitado para atuar como soberano; seu corpoé aquele sobre o qual tudo pode ser executado, mas que ninguém dirá que foisacrificado (Agamben, 1998, p. 129).Agamben (1998) se distancia da clássica ideia de Rousseau, segundo a qualo Estado se funda em virtude da assinatura – obviamente implícita – de umcontrato social. Na verdade, o Estado não consolida uma identidade nem confereum pertencimento. Tampouco se trata da conhecida lei simbólica que, com tantafrequência, discutimos como veículo de uma ordem libertadora, apaziguante esedativa. Dessa maneira, a partir de Agamben (1998), é possível perceber queo discurso da ciência produz segregações, por meio de uma numerificação e dapositivização dos fracassos escolares. A vida nua invade a escola e, consequentemente,se produz uma segregação.O conceito de dificuldade de aprendizagem é uma invenção da pedagogiado final do século XIX que surgiu a partir da reforma do sistema educativo cujoobjetivo é a generalização da educação e a avaliação das aptidões linguísticas,matemáticas, de leitura e de escrita em um curto espaço de tempo. A partir daí,esse conceito encontrou um substrato científico na psiquiatria e na psicologiaatual.Dessa forma, o diagnóstico organicista é dúbio, pois ajuda na resoluçãoimediata do problema da criança na escola, livrando a família da culpa pela nãoaprendizagem e mau comportamento e também apresenta as consequências dese nomear alguém tão cedo com um diagnóstico de transtorno mental.Tratado pela psiquiatria como dificuldade de aprendizagem, esse conceitose equipara às deficiências mentais, depois de ter sido interpretado como déficit.As causas da deficiência mental se articulavam com as síndromes do sistemanervoso, isto é, as causas simples tinham suas origens em problemas orgânicospodendo ser exógenas com sequelas de encefalite ou por problemas endógenos,como os transtornos congênitos.Assim, com a psicologia e a psiquiatria, é possível observar fatores de lesãoe de transmissão hereditários na constituição das causas essenciais das deficiênciasmentais. A tendência em considerar as deficiências mentais como consequênciade síndromes deficitárias por lesões do sistema nervoso, mesmo que tenha comoreferência os neurologistas atuais, ignora a dimensão estrutural do psiquismo apartir da relação entre o desejo da mãe e o Nome-do-Pai.Quero aqui defender a ideia de que a situação que deve funcionar paraque conhecimentos se transmitam ao longo de uma aprendizagem escolar, porexemplo, supõe a instauração de uma relação do professor/aprendiz suscetível,justamente para assegurar a transmissão do saber detido pelo professor. Nessesentido, o processo de aprendizagem está desvinculado de qualquer gênesesolipsista da “dificuldade de aprendizagem”, mas, sim, está próximo de umareferência sintomática. Assim, refutando qualquer herança orgânica, teríamosna relação do sujeito com o Outro a formação de sintomas de aprendizagem nãomais como falhas ou desvios de comportamento, mas referências na formaçãodo sintoma, da inibição e da angústia do sujeito.Buscaremos, agora, os desdobramentos dessa maneira de se interpelar asrelações e as construções do sintoma do ponto de vista analítico, levando emconsideração, também, o campo da transmissão de saber e as relações institucionaisenglobam o aluno em sala de aula.
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