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| Foto: divulgação |
ARTIGO DE VINÍCIUS VENADES
A história da crise ambiental começa muito antes de existir qualquer conferência internacional ou qualquer sigla. Por volta de 1750, com a Revolução Industrial, a humanidade mudou radicalmente sua relação com a natureza. O uso intensivo de carvão, depois de petróleo e outras fontes fósseis, permitiu um crescimento econômico acelerado, cidades maiores, fábricas, ferrovias, navios e uma produção nunca antes vista. Esse processo transformou o mundo, mas também inaugurou um modo de desenvolvimento que passou a consumir recursos naturais em uma velocidade maior do que a capacidade de regeneração dos ecossistemas. Durante muito tempo, os efeitos dessa transformação foram sendo acumulados silenciosamente.
Em 1950, no Japão, houve um acidente brutal com o desastre de Minamata. Durante anos, uma indústria despejou compostos de mercúrio na baía da cidade. O metal pesado se acumulou nos peixes e mariscos, base da alimentação da população local. O resultado foi uma epidemia de doenças neurológicas graves, com crianças nascendo com malformações, adultos perdendo movimentos, visão e fala, e famílias inteiras marcadas para sempre.
Em 1962, a bióloga Rachel Carson publicou o livro Primavera Silenciosa, que se tornaria um dos textos mais importantes da história do ambientalismo moderno. A obra denunciava o uso indiscriminado de agrotóxicos, especialmente o DDT, e mostrava como essas substâncias se espalhavam pela água, pelo solo e pela cadeia alimentar, afetando aves, insetos, rios e também pessoas. O título trazia uma primavera sem o canto dos pássaros, sem vida. O livro ajudou a transformar a percepção pública sobre o impacto dos produtos químicos e abriu caminho para políticas ambientais mais rigorosas em vários países.
Em 1966, no País de Gales, ocorreu o desastre de Aberfan. Uma montanha de rejeitos de mineração, acumulada por décadas acima da vila, deslizou após fortes chuvas e soterrou uma escola e várias casas. Mais de cem crianças morreram. A tragédia mostrou que a degradação ambiental e a má gestão de resíduos industriais eram questões diretamente ligadas à vida, à segurança e ao futuro das comunidades.
Em 1969, nos Estados Unidos, o vazamento de petróleo em Santa Bárbara, na Califórnia, teve enorme repercussão mundial. Milhares de barris de petróleo se espalharam pelo oceano, cobriram praias, mataram aves e animais marinhos e transformaram a paisagem em um cenário de destruição visível. As imagens circularam pelos jornais e televisões do mundo todo.
Esses acontecimentos prepararam o terreno para um momento decisivo. Em 1972, o Clube de Roma publicou o relatório Os Limites do Crescimento, que utilizava modelos matemáticos para mostrar que a combinação de crescimento populacional, exploração de recursos naturais e aumento da poluição levaria a graves crises ambientais e sociais ao longo do tempo. No mesmo ano, a Conferência de Estocolmo, organizada pela ONU, colocou pela primeira vez o meio ambiente no centro da política internacional. Chefes de Estado, diplomatas e especialistas passaram a discutir oficialmente temas como poluição, degradação ambiental, proteção da natureza e responsabilidade dos países no cuidado com o planeta.
A partir dali o debate ambiental deixou de ser apenas científico e passou a fazer parte da agenda global. Em 1992, a Rio-92, a Cúpula da Terra, aprofundou esse caminho e consolidou uma nova arquitetura internacional para lidar com os grandes problemas ambientais. Dela nasceu UNFCCC, United Nations Framework Convention on Climate Change, ou Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima que organizou, de forma permanente, as negociações entre os países sobre o aquecimento global.
Com a Convenção em vigor, veio a primeira COP – Conference of the Parties, Conferência das Partes – em 1995, em Berlim. Desde então, essas conferências passaram a acontecer todos os anos. Na atualidade, as COPs são o principal espaço internacional de negociação sobre metas climáticas, financiamento, adaptação, mitigação, transparência e implementação de políticas ambientais.
Após duas décadas de debates, um marco importante foi alcançado em 2015, com o Acordo de Paris, que unificou praticamente todos os países do mundo em torno de compromissos nacionais para conter o aquecimento global e reorganizar seus modelos de desenvolvimento. Foi o reconhecimento formal de que a crise climática havia se tornado um desafio central da civilização contemporânea.
Recentemente, no ano de 2025, o mundo se reuniu novamente, agora em Belém do Pará, no coração da Amazônia, para a 30ª Conferência das Partes sobre Mudança do Clima (COP30). Foi um momento histórico por conta da oportunidade de o Brasil demonstrar liderança climática em pleno palco amazônico. A Amazônia, maior floresta tropical do planeta, trouxe um novo tom para as discussões, as decisões tomadas nas salas da COP30 ecoariam diretamente sobre rios, florestas e comunidades da região.
E aí entra um ponto decisivo, todos nós fomos, somos ou seremos jovens um dia, e os desafios ambientais atuais afetam especialmente as novas gerações. Os jovens herdarão um planeta em transformação e, por isso, têm se posicionado com cada vez mais força nas causas ambientais. Muitas vezes se dizia que a juventude era “o futuro”, mas diante da urgência climática não dá mais para esperar, jovens do mundo todo reivindicam o presente, exigindo estar onde as decisões são tomadas, provando que liderança não tem idade.
De fato, um relatório da UNICEF (Youth, Protests and the Polycrisis – Juventude, Protestos e Policrise, 2024) mostrou um crescimento constante da participação de jovens em mobilizações de massa não violentas de 1990 a 2019, com a juventude tornando-se protagonista em ações pelo clima, inclusão e democracia. Os jovens já são hoje uma força motriz na conscientização ambiental e na pressão por mudanças.
Essa relação íntima entre juventude e meio ambiente se dá porque as mudanças climáticas ameaçam diretamente o futuro das crianças e dos jovens de hoje. Estudos indicam que eles sentirão de forma desproporcional os impactos de eventos extremos nas próximas décadas! (Do pátio da escola à COP30: crianças e adolescentes entram em cena nas discussões por justiça climática, 2025)
Ao mesmo tempo, jovens têm uma capacidade única de mobilização e inovação: trazem novas perspectivas, energias e senso de urgência à pauta ambiental. Não por acaso, crianças e adolescentes ao redor do mundo têm liderado greves climáticas, projetos comunitários de sustentabilidade e campanhas por justiça climática. No Brasil, não é diferente, das cidades às comunidades rurais, multiplicam-se exemplos de jovens engajados na proteção da natureza e no combate à crise do clima.
Neste passo, em 2011, a UNFCCC reconheceu oficialmente a YOUNGO como a Constituinte Oficial de Crianças e Jovens da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança Climática, uma rede global de jovens ativistas e ONGs que busca empoderar a juventude para participar e influenciar as políticas climáticas internacionais, promovendo a ação climática e a justiça intergeracional com uma estrutura descentralizada e inclusiva. Desse modo, organizadas pela YOUNGO, acontecem as Conferencias de Juventude, Conference of Youth (COY), os maiores e mais importantes encontros globais de jovens (ativistas, líderes e especialistas) dedicado a discutirem e proporem ações climáticas, ocorrendo anualmente logo antes da Conferência das Partes (COP) da ONU.
É importante destacarmos que meio ambiente não se trata apenas de ecologia em abstrato, mas também de qualidade de vida, saúde, educação e oportunidades para as próximas gerações. Proteger o meio ambiente significa proteger vidas e direitos, especialmente dos mais jovens. Um material educativo das Nações Unidas no Brasil (cartilha “Juventudes pela Justiça Climática – Você já está no clima?, 2023) enfatiza que a crise climática afeta múltiplos setores como saúde, educação, mobilidade e, alimentação, etc.
A COP30 ficou marcada por uma inclusão ainda maior de crianças e jovens nos processos oficiais da conferência. Logo em 2023, na COP28, criou-se formalmente o cargo de Campeão Climático Jovem da Presidência (Presidency Youth Climate Champion, PYCC), para cada COP, com a missão de ampliar e incentivar o engajamento de jovens nas decisões climáticas. No Brasil, essa função foi exercida por Marcele Oliveira, de 26 anos, nomeada pelo presidente Lula para coordenar a participação da juventude na conferência. Marcele – uma produtora cultural e ativista do Rio de Janeiro – liderou um time de jovens campeões climáticos brasileiros que prepararam o caminho para Belém.
Antes mesmo da COP30 começar, os jovens brasileiros já influenciavam os rumos da conferência. Durante a Pre-COP realizada em Brasília, em outubro de 2025, ocorreu o evento “Juventude Fala para o Mundo: Rumo à COP30”, em que movimentos juvenis entregaram formalmente suas propostas e prioridades à Presidência da COP30. O encontro reuniu mais de 300 jovens e ficou reafirmado o protagonismo da juventude na construção da agenda da COP30 e reconhecido o papel crucial dos jovens brasileiros em influenciar as políticas climáticas nacionais, inclusive às vésperas das eleições de 2026.
Uma das perguntas-chave é “fora da COP, o que os jovens podem fazer para ter mais contato com o meio ambiente e ajudar a protegê-lo?” A resposta passa por educação, experiências culturais e ações práticas. Em termos de educação ambiental, é fundamental que as escolas e universidades integrem seriamente a temática socioambiental em seus currículos e atividades.
Projetos pedagógicos como hortas escolares, aulas ao ar livre, feiras de ciências sobre clima e visitas a parques podem conectar os alunos à natureza de forma viva. No Brasil, já ocorreram várias Conferências Infantojuvenis de Meio Ambiente nas escolas (iniciativa do Ministério da Educação desde os anos 2000), que estimulam alunos a diagnosticarem problemas ambientais locais e proporem soluções – uma forma de aprender fazendo.
No âmbito da cultura, os jovens podem se engajar por meio da arte, da mídia e da comunicação. Música, cinema, teatro e artes visuais têm sido usados para sensibilizar sobre as mudanças climáticas. Por exemplo, oficinas de eco-música e eco-moda ensinam a expressar mensagens ambientais através da criatividade. Muitos jovens influenciadores digitais também usam as redes sociais para difundir conhecimento ecológico, desmentir fake news climáticas e convocar ações coletivas. Eventos culturais como slams de poesia socioambiental e mostras de cinema verde podem aproximar ainda mais os jovens de temas como água, florestas e reciclagem, de uma forma acessível e engajadora.
Há que se lembrar de que nada substitui o contato direto com a natureza. Para amar e proteger, é preciso conhecer. Assim, os jovens podem buscar vivências ao ar livre: visitar unidades de conservação, fazer trilhas ecológicas, praticar esportes em parques, observar a fauna e a flora locais. Programas de voluntariado ambiental são excelentes portas de entrada, por exemplo, participar de mutirões de plantio de árvores, limpeza de rios e praias, monitoramento de animais ou reflorestamento de áreas degradadas. Esses trabalhos não apenas aproximam a juventude do meio ambiente como também geram benefícios concretos para a comunidade.
Ações simples no dia a dia, como separar corretamente os resíduos, economizar água e energia, optar por transporte limpo e apoiar a agricultura local estão ao alcance de todos os jovens e fazem diferença quando somadas!
Por fim, engajar-se politicamente também é uma forma de estar mais conectado ao meio ambiente. Os jovens podem participar de conselhos de juventude, conselhos de meio ambiente, audiências públicas ou abaixo-assinados, levando suas demandas às autoridades. Há, portanto, muitos caminhos, como educação, cultura, ação comunitária, que se complementam para aproximar a juventude da natureza e formar uma cidadania ecológica ativa.
Vinícius Venades

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